Engraçado como te amei tanto e com todas as minhas forças e com uma felicidade sem medo ou dor. Te amei num momento em que eu não sentia absolutamente nada e te amei mais por me fazer sentir. E só te amei depois daquele dia no chuveiro, quando você me deu permissão. Sempre depois da sua permissão. Como por medo, como por covardia.
Engraçado como ainda te amo agora. Mas não você. Amo aquilo que você era, aquilo de que me lembro, e me vejo amando um fantasma. Eu olho para você agora e é como ver uma pintura vazia. Não se pode amar um estranho, não é? E você agora é um estranho.
Engraçado como eu te pedi para me dar tempo e espaço e você não deixou e eu fiquei, esperando sempre a autorização. Que não veio. Que quando veio foi um escorraço: "então vai embora, não me deixa de tratar mal." E, como era de costume, obedeci. E de repente você se esforçou tanto para me afastar, me isolar, me manter longe, que você se tornou um ponto idefinido no horizonte, uma mancha que não me diz nada.
Engraçado como ainda sinto falta. Mas não do que achei que sentiria: do sexo, da coisa carnal, do toque, só consigo sentir repulsa pelo que permiti que me fizesse, ainda que sem notar; mas mais ainda pelo que te fiz, pelo forma terrível como te violentei. Criminosa.
Sinto falta da companhia de cinema, das tardes a toa, das conversas completadas pelo pensamento. Sinto falta das noitadas, de te ver divertir sem cuidado, de me perder na música. Quando penso nisso, aí sim, meu coração dói. Mas de resto, daquele amor que eu pensava mesmo, ia estar la na nossa velhice, romântico, não sinto nada.
Então, quando você estava longe, eu senti de novo. O coração bateu tão quente e gostoso e apertado. E meu sangue correu e eu fiquei vermelha e eu sabia: estava apaixonada. E ia dar errado. E por dois segundos eu quis te contar de como ele podia me fazer feliz, de como era excelente sentir de novo, sem racionalizar, sem esperar que o outro me dissesse "tudo bem". Mas os dois segundos passaram e ao fim deles eu percebi que mesmo que você quisesse ouvir, contar não faria o menor sentido. Cortara-se o laço, afinal. Como você quis tanto, mas não teve hombridade suficiente para me dizer.
Me pergunto se algum dia vou encontrar você de novo. Não você que eu encontro as sextas, mas você que tomava café comigo na padaria, que assistia filmes idiotas e ria do meu coração apertado. Você que ficava sem jeito quando eu descobria uma danação sua. Desse "você" sinto falta. Sinto aperto no peito e amor.
Mas do que você é agora eu desconheço. Como te disse de outra vez: posso mesmo começar de novo e ser feliz. Mas você consegue se livrar da culpa?
1 déjà vu:
No meu mundo perfeito, todos seremos sinceros uns com os outros. uma sinceridade perigosa, que não liga para pudor ou pensamentos de terceiros.
queria poder te dar esse mundo.
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